Indignação
Programa MUITAÇÃO
Ao terminar minha apresentação, uma das colegas multiplicadoras do Germinar veio me contar que ela e um grupo do Instituto EcoSocial partiriam na próxima semana para uma missão muito transcendente: O Programa MuitAção: Construindo meu lugar no mundo!
Um programa de desenvolvimento e profissionalização para jovens entre 16 e 21 anos de idade, desempregados e em situação de vulnerabilidade social que tenham forte vontade de transformação e desenvolvimento.
Fiquei encantada com o Programa, já que muitos jovens dessa idade não têm assistência e precisam fazer escolhas profissionais e pessoais que necessitariam de um auto conhecimento gerador de convicções a respeito da própria vida.
Ao demonstrar todo meu interesse, fui convidada a fazer parte desse grupo e, com muita gratidão e abertura a grandes aprendizagens, estarei imersa, nos próximos 15 dias, em uma comunidade de São Paulo, nesse Programa de bem.
A metodologia do Programa MuitAção baseia-se nos pilares da antroposofia e os fios dourados que regem o programa são: Admiração (abertura ao mundo), Compaixão (sentir-se como é ser outra pessoa) e Consciência moral (agir com responsabilidade e moralidade).
Fiquei encantada com o material que recebi: O programa foi criado em 1998 por David Liknaitzky, na África do Sul, para fazer frente à problemática pós-apartheid de altíssima exclusão do negro na sociedade, aliado à sua condição histórica de submissão, com pouca condição de se colocar “em pé de igualdade” com o branco, em busca de uma posição no mercado de trabalho. No Brasil, foi criado em 1999, sob a liderança de Maria Angélica Carneiro, com objetivo de adaptar o programa e sua metodologia à realidade brasileira, de alta exclusão social, baseada principalmente na pobreza.
Sou muito grata pela oportunidade e espero crescer junto com esses jovens e poder multiplicar esse Programa por muitas e muitas vezes!!
“Nós temos que ser a mudança que queremos ver no mundo” Ghandi
Vamos Germinar?!?
Quem somos nós?
Caio é maior que C-A-T-A-R-I-N-A!!!
Recordo-me de uma experiência que vivi quando lecionava para crianças de 4 anos num colégio particular. Estabelecíamos um ritual de chegada o qual cada criança pegava uma tira de papel com seu nome escrito em letras de forma maiúsculas (chamávamos de crachá).
Era muito comum o aluno CAIO chegar e pegar o “crachá” da aluna CATARINA, não se conformando quando mostrávamos que seu crachá era o outro.
Um dia perguntei a ele:
- Porque você sempre pega o crachá da Catarina?
E ele me respondeu, com toda convicção:
- Porque sou maior que ela, então o meu crachá tem que ser maior que o dela!
Achei super interessante a relação que ele fez, demonstrando-se inconformado em ser um menino tão grande com uma crachá tão pequeno, enquanto a Catarina, uma das menores alunas da sala, tinha um crachá maior que o seu!
Brincar espontâneo
A conquista do andar!
Falando sozinha de novo?
Já me peguei falando sozinha vaaaarias vezes, mas com uma lagartixa foi a primeira (eu acho).
Sabado ela estava no teto do meu quarto, fiquei com dó de matá-la e a deixei por ali mesmo.
Ontem cedo fui tomar banho e ela tava dentro do box, pensei: Como ela veio parar aqui? Será que a noite ela pulou na minha cama e se escondeu no meio do meu cabelo?
Deu um certo pavorzinho tomar banho com ela mas me contive e fingi que sua presença não me incomodava (apesar de me arrepiar toda vez que pensava que ela poderia subir pelos meus pés).
Mas agora, qd voltei do trabalho e fui tomar banho, lá estava a bichinha dentro do box, não aguentei, me peguei no maior papo com ela do tipo: vc de novo? deixei o vitrô aberto pra vc sair...
Papo vai papo vem, desliguei o chuveiro, peguei um pedaço de sulfite, brincamos de "pega pega" (ela ainda fez hora com minha cara, como se eu não tivesse mais nada pra fazer hoje!) e quando consegui pegá-la (enfim), sacudi a sulfite na minha "hortinha" da janela e avisei pra lagartixa que se ela entrar de novo, morre!!
Aff...
Me veio uma doce recordação da Vó Lona que tinha pavor de Lagartixa, com a Vó a lagartixa Garida (peguei tanto afeto que ela já tem até nome), bom, se dependesse da vó Lona, a Garida já tinha morrido no sábado, claro que outra pessoa teria a matado pois a vó já teria saído correndo!
O céu é o limite!
Já disse que não sou loira!
Onça pesada
Dedo derretido
Flor dorminhoca
Coordenadora não trabalha
Pindamonhangaba
- De onde a senhora veio?
- Pindamonhangaba - respondi.
- "Pindamongangaba"? Essa cidade existe? - Perguntou gaguejando e com ar de espanto.
- Sim. Por que? - respondi com mais ar de espanto ainda.
- Pensei que o Raul Gil que tivesse inventado!
Mais uma de taxista
E claro, o taxista não era natural de São Paulo! Um figura, falante a beça, disse que era nordestino, quando perguntei de qual cidade ele era, me indagou:
- Você vai ter que adivinhar, sou da cidade que queria ser carro.
Para sua surpresa (e para minha também) rapidamente respondi:
- Sergipe.
Espantando, ele falou:
- Nossa, você é a primeira pessoa que acerta logo de cara! Sempre falam Paraty aí eu digo: Não, não sou carioca, ou então dizem: Brasília, e eu digo: Não, também não sou corrupto. Mas você acertou na hora!
- Ué, você falou do Nordeste, logo pensei em Sergipe!
- Ah, então não valeu! Eu falei que era Nordestino! E você, é de onde?
Na preguiça de contar toda minha trajetória e porque fui parar em São Carlos e hoje estou em São Paulo, apenas respondi:
- Pindamonhangaba.
- Já passei por “Pingamogaba” - (Por que será que todos têm dificuldade em dizer esse nome?).
- O que o senhor foi fazer lá?
- Eu ia para Campos do Jordão, comemorar meus vinte cinco anos de casado, me perdi e parei em Pinda.
- Que chique hein! Comemorar em Campos!
- Foi presente dos meus filhos, trocaram nossas alianças e pagaram nossa viagem! Tenho três filhos! Você nasceu em Pinda? Você tem sotaque de mineira!
- Eu nasci em Minas!
- Agora eu que acertei de primeira!
- Pois é.
- Eu tenho quatro cunhados mineiros, são da cidade dos loucos, como é mesmo o nome da cidade de Minas Gerais que só tem louco?
- Não sei.
- É um cidade que tem hospício aí eu tiro sarro deles falando que são loucos. Eles são de de de... Ah, lembrei! Barbacena.
- Tem quatro cunhados? Quantos irmãos o senhor tem?
- Menina, menina, não devia ter feito essa pergunta menina! Esqueceu que sou nordestino?
- Nordestino tem muitos filhos?
- Em casa tem um time de futebol, mais o técnico e mais os reservas! Calcula aí quantos irmãos eu tenho!
- Nem imagino!
- Tenho quatorze irmãos! Todos vivos e casados e todos moram aqui em São Paulo!
- Família unida!
- Amanhã serei padrinho de casamento!
- Que legal, de alguma sobrinha?
- Não, é amiga da igreja!
- Assim é mais bacana ainda né? Ser convidado por amizade!
- Que amizade nada! Me convidou por causa do meu dinheiro! Você é casada?
- Não, tenho namorado!
- Ah, mas logo vocês casam, não deixa o cara te enrolar não. Ele é mineiro ou é de Pinda?
- Ele é de Bauru mas nasceu aqui em São Paulo!
- Ih, ta ferrada! Paulistano é enrolado! Não quer saber de casar não!
- Pois é, também estou desconfiada disso!
- Brincadeira moça! Esse ano você ainda casa.
- Opa, então já que o senhor é cheio da grana também vou te convidar para ser meu padrinho!
- Não menina, assim você me quebra! Ainda bem que já chegamos na casa do seu irmão senão eu ia acabar sendo seu padrinho mesmo!
E assim termina mais um “causo taxicês”.
Sobre Ipês Amarelos
A primeira vez que vi (alias, que percebi sua magnífica existência) foi em 2004, quando fui a Aparecida com uma querida amiga, a Neila.
Durante a viagem, ao observarmos a bela paisagem natural existente na estrada, Neila me chamou a atenção ao fato de que, entre tantas árvores, se destacava uma árvore de flores amarelas, típica da passagem entre as estações inverno e primavera.
Desde então, os ipês amarelos passaram a fazer parte atuante da minha vida.
O ipê amarelo é, para mim, a imagem plasmada do Criador.
Quando estou na estrada, ou até mesmo na cidade e vejo um ipê amarelo, sinto como se Deus estivesse sorrindo para mim.
O encantamento que tenho com os ipês amarelos é exatamente o mesmo que tenho quando vejo uma criança (qualquer criança que seja).
É difícil descrever a sensação, permeada por um misto de esperança, alegria, conforto, amor e gratidão, muita gratidão.
E, viva! Aos ipês amarelos!
Gripe Japonesa
Aproveitei que uma amiga querida apresentaria sua qualificação de mestrado na USP, com o tema: “Caixas de brinquedos e brincadeiras: elementos de ressignificação da prática pedagógica em contexto” e resolvi prestigiá-la. Oha só o que me acontece no trajeto:
Acordo às 7hs (aliás, o despertador tocou às 7hs).
Bom, vamos lá:
Acordo às 7hs, troco de roupa, assalto a geladeira do meu irmão (quando venho à pós costumo ficar na casa dele).
Olho na janela, muita chuva e frio, estou doente e cheia de bagagem, não vai dar para ir de ônibus e metrô, então, chamo um taxi.
Chega um senhor japonês, grisalho, aparentando mais de sessenta anos, usando um aparelho auditivo.
Sorridente, me vê cheia de malas e me ajuda a guardá-las no carro.
Começamos nosso trajeto, trânsito engarrafado e taxímetro rodando, quando pergunto:
- São dez quilômetros de distância né?
- Não sei. – Responde o japonês, rindo.
- Pelo que vi no Google map, são dez sim.
- Viu na internet?
- Sim. – Respondi.
- Não sei usa computador então nem comprei.
- E GPS?
- GPS fala tudo errado, moro no Jaraguá e o GPS me faz dar muitas voltas para chegar lá.
Silêncio...
Curiosa em saber se ele veio do Japão (por que teimo que todos japonês vem do Japão?), pergunto:
- O senhor nasceu em São Paulo?
- Não, sou de Pedregulho. Cidade do Quércia. Conhece o Quércia?
- Não pessoalmente. – Respondo.
- Os pais dele moram em Pedregulho. Tinham um sítio pequeno e agora eles têm uma fazenda cheia de gado.
- E o senhor, tem fazenda lá em Pedregulho?
- Eu não (risos). Tenho um parente que planta café.
- Café dá dinheiro né?
- Depende. Acho que não. Choveu “granito” ontem. Pedra desse tamanho (fez uma bola com a mão).
- Mas é só uma fase ruim, logo o tempo irá melhorar!
- Vai sim.
Silêncio...
Entramos na USP, erramos o caminho, taxímetro rodando, pedimos informações e enfim chegamos ao nosso destino.
Ao descer do carro, aquele simpático senhor japonês (que não nasceu no Japão), abre o porta luvas, pega umas balinhas e diz:
- Balas de gripe japonesa.
- O que? Além da gripe suína existe a gripe japonesa? (pergunto rindo).
Ele ri e diz:
- Essa é da boa. Você vai sarar.
Nos despedimos e aqui estou eu, chupando essa bala ardidíssima enquanto escrevo! Na esperança de sarar logo dessa gripe e de ter uma voz menos rouca e máscula e claro, agradecendo pelo carinho e a simpatia do taxista japonês que veio de Pedregulho.
Alias, já repararam que os taxistas de São Paulo não são naturais de São Paulo?
Alimento para a alma
Trabalho, de 3ª a 5ª feira, por meio período, na Brinquedoteca dessa Instituição.
De 6ª feira a domingo, as crianças que freqüentam o local são assistidas por voluntários do espaço.
Gostaria de compartilhar uma experiência que muito me emocionou.
Recebemos, às 3as feiras, alunos de uma escola pública próxima a Instituição.
O comportamento do menino V. de cinco anos de idade, me chamou a atenção desde o primeiro dia de sua vinda a Brinquedoteca.
O menino ficava o tempo todo em um canto, isolado, recusava-se a brincar e participar dos jogos e brincadeiras.
Tentava envolvê-lo àquele mundo mágico cheio de brinquedos, fantasias, carrinhos, bonecos, fazendinha... Mas, meu esforço sempre foi em vão.
A professora falava: “Não se preocupe, Melina, ele é emburrado mesmo, reclama de tudo, nada está bom para ele.”
Na sua terceira vinda ao espaço, tentei uma maior aproximação ao V. mas ele insistia em dizer: “Quero ir embora.”
Peguei-o no colo. Senti o quanto ele é levinho e pequeno para sua idade. Pareceu-me tão frágil que, cuidadosamente, embalei-o em meus braços e iniciei,
enfim, um diálogo:
- Preparamos a Brinquedoteca com muito carinho para você e seus amigos se divertirem e brincarem a vontade. Tem tanta coisa legal pra fazer. Conta para mim, por que você não gosta de vir aqui?
- Porque você é muito malvada.
- Por que sou malvada? O que eu fiz?
- Porque você não me leva lá no refeitório para comer pão, bolo e suco.
- Mas V., aqui na Brinquedoteca vocês ficam por pouco tempo e logo em seguida voltam para a escola que é super pertinho daqui e tomam lanche lá!
- Mas quando eu venho aqui no sábado a moça leva todas as crianças no refeitório e eu estou com fome.
- Mas hoje é terça-feira, só funciona a Brinquedoteca aqui. E não tenho a chave do refeitório. Você não comeu antes de ir para a escola?
- Eu como café com farinha mas a farinha da minha casa acabou e só o café me dá dor de barriga.
Engoli a seco, recordei o café da manhã maravilhoso que como todos os dias, e propus ao miúdo menino:
- Vamos fazer o seguinte: Você vai me ajudar a mostrar as cartinhas do jogo para os amigos aí o tempo vai passar bem rapidinho e você vai para a escola tomar um lanche bem gostoso que a merendeira está preparando!
Para a minha surpresa, o menino abriu um sorriso! Dei um beijo em sua bochecha e fomos jogar com as outras crianças!
O contato olho no olho que V. me proporcionou naquele momento encheu de alegria meu coração!
E o menino sentiu-se super importante por ser “a pessoa” responsável por mostrar as cartas dos jogos aos amigos. Interagiu, riu e depois ainda experimentou várias fantasias!
Ao final do atendimento, o menino veio despedir-se de mim e disse: Você é boazinha!
Desde então, V. freqüenta a Brinquedoteca com bastante entusiasmo, alimentando-se do prazer do brincar.